27 de setembro de 2013

A canção da manhã

Então desça, titânico rapaz,
Desperte a tua desejada, a adormecida!
Anda cá abaixo e cinge
Com pétalas delicadas a sonhosa cabeça.
Acende o inquieto céu com facho ardente,
Que as estrelas empalidecidas dançando soem
E os véus voadores da noite
Ao alto chamejando desvaneçam,
Que se pulverizem as ciclópicas nuvens,
Nas quais o inverno, fugindo da Terra,
Ainda a bradar ameaças faz com chuvas gélidas,
E os longes celestes em pureza radiante se abram.
Se acaso adentrares, ó maravilhoso, a juba esvoaçante,
À Terra abaixo, acolhe num silêncio sagrado
Ela o noivo bramante, e tremendo em calafrios profundos
Por este teu tão inquieto amplexo tempestuoso,
O seu sagrado colo a ti ela abre.
E um docíssimo sabor à extática lhe vem,
Quando tu, candente de pétalas, acordas
Sua vida fecunda, cujo nobre passado
Mais nobre futuro impele,
E a ti se iguala, como tu a ti mesmo te igualas,
Com o que, à tua vontade rendida, ó sempre vivaz,
Nela um eterno enigma
Em nobre beleza novamente no futuro se reitera.

 Georg Trakl in: Gedichte, Sonstige Veröffentlichungen zu Lebzeiten ─ tradução do alemão por Udo Baingo 27 de setembro de 2013

16 de setembro de 2013

a vida

a vida é chance
e chave de ignição
sem mais
perdida ao se ganhar
qual corrida n@ autobahn noturna
colorida
de luzes traseiras
e a dança de faróis dianteiros
numa viagem
sem vinda
só ida
ao futuro
se emblema de passado
no rastro invisível
do pneu
na via na qual
a mais dura
ruptura nos acontece

a vida é chance
e sinal de elevação
sem menos
perder do que ganhar
qual pista de corrida
de roleta russa
na qual a bola
rebola e se esbola
e se emblema no passado
do número atirado
já desde o primeiro instante
rapto que nos acontece

a vida é servida
por uma aeromoça
como quitute
de brinde
e de flanco
o seu olhar
só visa a moça
e o doce olhar
do engano
e do plano aquém

ah se não nos enganassemos
ah se não nos agitasse o êxtase

7 de setembro de 2013

Entre anotações de uma agência de viagens home-office

Deixei cair o tinteiro inteiro / fuleiro
Sobre essas páginas / o papel
                                    e encharcam integramente no lodo
As fibras se enlaçam
Da criação
    Passou boiada d'além-mar na avenida
O ar fez cócega no nariz são
Pintei o sete com o tênis 37
Era sete de setembro um dia de
março, die de marcha
Felicito o ser independente
Que ventan(i)a / avoam folhas
Dai-me um dinheiro
(Faz que) cai um cinzeiro
Qual praça onde se queimam
                                                livros

 (Favor pular coisas escritas ao avesso)

Pimenta errada ainda é pimenta
Portanto animais o tanto que
que reis

(Favor virar folha)
Aquilo que erro fica corado no papel
Celulosers de todo o mundo
Uni-vos.

Lemos mais       que bebemos
                     do
Somos mais       que já somos